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domingo, janeiro 22, 2012

A HISTÓRIA DE TODOS OS DIAS ou PEDRA E BALA


"Juventude que ousa lutar, constitui o
Poder Popular"
A História não acontece apenas de maneira bombástica, ela não é apenas a História dos grandes atos e das grandes pessoas. As pequenas pessoas e os pequenos atos, atos cotidianos, também fazem parte da História, também são História. A História de todos os dias. Era a História que estava sendo escrita quando, em 20 de janeiro de 2012, as ruas da cidade de Recife foram tomadas pelas reações indignadas de pessoas, de usuários de transportes públicos, de trabalhadores e, principalmente, de estudantes, que contestavam o aumento do valor das passagens de ônibus.
                O protesto começou a partir do cais de Santa Rita sob a ação do batalhão de choque. Atirando bombas de efeito moral e spray de pimenta, dispersaram os manifestantes, mas não a gana de lutar contra o aumento. Outro grupo se organizava na Avenida Conde da Boa Vista mais precisamente no cruzamento desta com a Rua Sete de Setembro. Os estudantes saíram em caminhada, sendo pressionados pelos policiais da ROCAM a não atrapalharem o trânsito. Ironia: o nome da rua que faz cruzamento com a Avenida faz referência ao episódio da Independência do Brasil! E se limitava a liberdade de expressão naquele momento.
Discussão entre lados que não são opostos
Testemunhei uma discussão entre os manifestantes, o cobrador de um ônibus e uma usuária. O cobrador reclamava por ter seu trabalho atrapalhado pela passeata e que eles (os estudantes) já pagavam meia passagem. O estudante argumentava afirmando que o aumento do preço da passagem não significava aumento salarial para ele ou para o motorista e que eles estavam lutando para que a senhora não tivesse que pagar mais caro.
Os manifestantes rumaram para a Praça Osvaldo Cruz sendo escoltados pelas forças da ROCAM. De lá marcharam rumo ao prédio da Faculdade de Direito do Recife (FDR), escoltados pelo batalhão de choque que fora convocado para evitar que fosse colocada em risco a segurança da sociedade. Os soldados do batalhão de choque pressionavam para que ocupassem apenas um dos lados da rua.
Desrespeito ao Código Penal e à liberdade de expressão

Manifestante apela à jurisdição e discursa
pela igualdade na bandeira
Assentada em frente da faculdade de Direito, a estátua de Tobias Barreto, ele mesmo um rebelde que enfrentou as estruturas de uma sociedade escravocrata, assistiu a ação das tropas do batalhão de choque contra estudantes. Em cenas que lembraram os conflitos das forças militares contra estudantes durante os anos de chumbo do regime militar, assisti a uma jovem ser presa enquanto protestava. Vale acrescentar que, segundo o artigo 249 do Código Penal, apenas agentes femininas podem abordar mulheres, se a ação exclusivamente feminina não prejudicar o ato policial. Perguntas: O que havia de tão perigoso, naquela jovem de baixa estatura, que movimentou quatro policiais para sua prisão, enquanto a policial feminina apenas observava? E o que havia de tão perigoso nas palavras gritadas pela moça? Cenas como essas aconteceram nos anos 1970, quando as tropas militares cercaram o prédio, na república militar, aquela que exilou, por exemplo, o avô do atual governador do Estado.
                Sob as lentes das emissoras de televisão e de cidadãos, o choque atirou contra os manifestantes, que procuraram abrigo no território da FDR. Naquele momento entendi de maneira mais intensa, quase na própria pele, as razões das reações vigorosas dos estudantes paulistas que negavam – e ainda negam – a entrada e manutenção de forças militares no território da USP. Imaginei o que poderia ter acontecido se fosse permitida a entrada das forças do Choque na Faculdade.

ENTENDENDO O QUE ACONTECEU

Antes do segundo confronto com
a polícia, manifestantes ocupam a
rua Princesa Izabel
              Antes, uma pequena digressão. Uma pergunta me foi feita certa vez por uma aluna: Por que as coisas que acontecem em tempos mais próximos de nós não são estudadas e o que aconteceu há mais de cem anos estudamos tanto? Respondi para ela que a justificativa dada por muitos historiadores (aqueles que são legitimados pelas universidades por produzirem o discurso competente, ou seja, aquele que é dito por quem, teoricamente, sabe o que está dizendo, porque estudou o que outras pessoas que sabiam o que estavam dizendo produziram) é que para se tratar de um acontecimento deve-se evitar o envolvimento com o que aconteceu. Quanto maior o afastamento temporal, segundo alguns competentes historiadores, menor a possibilidade de se misturar juízo de valor com a análise histórica.
                     Por falta de um “afastamento temporal”, não poderia, então, analisar historicamente o ocorrido, inclusive porque eu estava lá, mas, como professor de História, não posso ignorar o meu papel social. Mais do que tomar partido, mais do que convencer os leitores deste blog e estudantes que têm aula comigo, tenho que levá-los a refletir, a pensar acerca da realidade na qual estão inseridos. Tudo é História.
             Durante a manifestação muitas pessoas reclamaram. Tiveram seus percursos atrapalhados. Chegaram atrasados em seus compromissos. Muitos eram trabalhadores, os principais usuários do sistema de transporte, logo, os principais afetados pelo aumento.
Segurança para quem?
Vi ali uma mostra de ideologia, uma percepção da realidade que não é a real. Vive-se a partir de valores de uma classe social tomando tais valores como seus. Vive-se em sociedade acreditando que ela sempre esteve lá, daquele jeito. Naturaliza-se o que é social, o que é cultural. A exploração de uma classe não é natural. A desigualdade é social, historicamente situada. Não somos naturalmente desiguais. Somos naturalmente diferentes.
A discussão entre o cobrador de ônibus e um dos manifestantes é um exemplo disso. Sem perceber que é parte da estrutura de dominação, ele, o cobrador, afirmou que os estudantes não deveriam reclamar, pois já pagam meia passagem. Não notou, o funcionário da empresa de ônibus, que aquele aumento não será repassado de maneira equivalente para o seu salário e que ele continuará mantendo os donos das empresas de ônibus através da mais valia gerada pelo exercício de sua função.
A função do Estado, segundo alguns, é garantir a segurança e o bem estar de todos. Tendo esse objetivo, o Estado pode legitimar qualquer ato. Desde o mais democrático até o mais autoritário. Essa foi a fala do chefe do batalhão de choque ao justificar a ação violenta contra os manifestantes. Atirar bombas de efeito moral, spray de pimenta fazem parte do monopólio da violência que o Estado quer manter em nome da segurança coletiva.
Considerando que a base do regime democrático é a liberdade de expressão, qual o crime que os manifestantes cometiam? Atrapalhar o trânsito? Raciocinemos de maneira diversa da qual estamos acostumados.
Quem estava nos coletivos que atrasaram seus percursos? Trabalhadores, em sua maioria. Para onde iam tais trabalhadores? Vender sua força de trabalho para os donos dos meios de produção. Se eles se atrasam, é possível que tenham descontado de seu salário mensal o equivalente ao tempo da demora. O que motiva o desconto? Que os patrões possam garantir que os trabalhadores não queiram se atrasar ou serem atrasados sob pena de terem seu rendimento referente àquele mês reduzido.
Continuemos: as instituições sociais são criadas para atender aos interesses de quem? Dos grupos dominantes. A polícia é uma instituição social. Se os grupos dominantes criam instituições sociais para atender aos seus interesses, a quem a polícia vai atender? Aos grupos dominantes. A quem incomodavam os estudantes que reagiam ao aumento do preço das passagens de ônibus? Aos grupos dominantes. Viu que não é difícil tirar o foco da maneira de pensar a qual estamos acostumados?
Planejamento da próxima ação
Amotinados no prédio da FDR, os manifestantes aguardaram a chegada do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para garantir que não sofreriam represália por parte do batalhão de choque. Em plenária, procuraram decidir qual o próximo passo em busca do cancelamento do aumento.
Ao final da tarde, aqueles manifestantes garantiram a segurança para saírem do abrigo da FDR. Alguns com a moral sangrando, atingida pelas bombas; outros, incertos acerca dos resultados reais daquela ação; mas todos e todas, ainda que sem saber, escreveram um capítulo da História de todos os dias.
E eu, professor de História, confirmei que Tudo é História não conseguindo tirar da minha cabeça a canção Pedra e Bala (ou Os Sertões), de Lirinha e BNegão, executada pelo grupo Cordel do Fogo Encantado.

As armas dos policiais contra as pedras e as palavras dos estudantes


Leia a letra. Escute a canção. Pense fora da caixa.

TENHA HISTÓRIA NA CABEÇA.

              

Juntem...
As forças pra seguir nessa jornada... na na na na!...
Busquem...
As forças pra lutar na sua própria batalha... na na na na!...

A poeira subiu de ambos lados
Arames farpados olhos e punhos fechados, cerrados
A face marcada pela mesma vida seca como a terra, rachada
Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor, eu disse:
"Essa é a sua jaula"
Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial

Guerra pela terra, a pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes
Na inversão dos papéis do pequeno Davi contra Golias, o Gigante
Como os barões das mega-corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como os vários e vários e vários Ubiratans
(Ubiratans...)
Com seus sanguinários batalhões
(É pedra e bala rasga o peito)
Que na sua prepotência
(De quem passa, passa sem destino)
E ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força que a chegada certeira, daquela pedra

Juntem...
As forças pra seguir nessa jornada... na na na na!...
Busquem...
As forças pra lutar na sua própria batalha... na na na na!...

Um beijo seco no portão do teu ouvido
Quebrando cercas pra chegar, na nossa mira
A pedra curte, a bala corre e voa
A pedra fura, bala transpassa
A bala é quente e a pedra é pura como um gole de cachaça
Velho como teu projeto louco
Forte como quem chora de medo
Guerra pela terra
A pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes
Escuto em alto falantes aquele som de cimento dessa muralha sem fim
Desejo a pedra e a bala
E a santa paz fora do jogo
Pois o que fala alto é pedra e bala
(Pedra e bala)
Naquela praça onde as crianças brincam
(Sol, poeira)
Naquele prédio perto das estrelas
(De pedra e bala)
Naquele circo no qual quando chove não há espetáculo

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