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quarta-feira, julho 13, 2011

MÉDICO RELATA O QUE VIU EM CIDADE ATACADA POR BOMBARDEIO ATÔMICO EM 1945


Todos me chamavam ao mesmo tempo: eram doentes do hospital que tinham sobrevivido, ou melhor, não tinham ainda morrido... Como a explosão se dera na hora de maior movimento, na que funcionava o ambulatório para doentes externos, os corredores, as salas de espera, os laboratórios, eram um amontoado de corpos, corpos nus de feridas expostas, corpos nus com a pele em tiras, corpos nus que pareciam de argila pela cinza que aderira a eles. Espetáculo tão tremendo, que não se podia imaginar que se tratasse de seres humanos, nem que semelhante quadro pudesse jamais existir... Dessa alucinante massa de carne, arrastavam-se lentamente aqueles em que existia ainda um sopro de vida; cercavam-me, agarravam-me as pernas: “Salve-me, doutor!” – gemiam eles. Alguns, impossibilitados de falar, exibiam apenas as suas chagas.
(…) Vinte minutos tinham se passado depois da explosão. Toda a região de Urakami ardia em grandes labaredas. O próprio centro do hospital já pegara fogo. Somente a ala direita, ao longo da colina, permaneceu intacta. Mas não tínhamos mais material ou ajudantes; era deixar se propagar o incêndio e contemplar o espetáculo medonho: corpos nus cambaleando, tropeçando, continuavam a escalar a colina para fugir da fornalha. Duas crianças passaram, arrastando o pai morto. Uma mulher jovem corria, apertando contra o peito o filho decapitado. Um casal de velhos, mãos dadas, subiam juntos, lentamente. Outra mulher, com as vestes repentinamente ateadas, rolou pela colina abaixo como uma bola de fogo. Um homem enlouquecera e dançava em cima de um telhado, envolto em chamas. Alguns fugitivos voltavam-se a cada passo, enquanto outros caminhavam firme para a frente, apavorados demais para voltar. (…) Por detrás desta gente, as labaredas avolumadas aproximavam-se cada vez mais. Felizes ainda eram esses 10% que escaparam do inferno; os outros, presos e soterrados sob escombros, morriam queimados vivos.
(…) A pressão imediata [provocada pela bomba] foi tamanha que, no raio de um quilometro, todo ser humano que se encontrava do lado de fora, ou num local aberto, morreu instantaneamente ou dentro de poucos minutos. A quinhentos metros da explosão, uma jovem foi encontrada com o ventre aberto, seu futuro bebê entre as pernas. Muitos cadáveres perderam suas entranhas. A setecentos metros, cabeças foram arrancadas e, por vezes, os olhos saltaram das órbitas. Alguns, em conseqüência de hemorragias internas estavam brancos como folhas de papel, os crânios fraturados deixavam destilar o sangue pelos ouvidos. O calor chegou a tal violência que, a quinhentos metros, os rostos foram atingidos a ponto de ficarem irreconhecíveis. A um quilometro, as queimaduras atômicas tinham dilacerado a pele, fazendo-a cair em tiras, dando-lhe um tom marrom avermelhado e deixando a vista a carne sangrenta. A primeira impressão não foi, segundo parece, a de calor, mas a de dor intensa, seguida de frio excessivo. A pele levantada era frágil e saía facilmente. A maioria das vítimas morreu com rapidez.

(In: JR., José Augusto Dias, ROUBICEK, Rafael. O brilho de mil sóis. História da bomba atômica. São Paulo: Ática, 2000, p. 48-9.)

3 comentários:

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  3. Dizem que os alemães se setem mal por ter sido o seu país a começar a guerra, e que lá esse passado é desprezado a ponto de não quererem se quer lembrar disso. Um passado que envergonha muitos alemães. Será que com os amereicanos é o mesmo? Será que eles se envergonham com o que fizeram?
    O mais incrível é que mesmo sabendo do horror que uma arma dessas proporções pode fazer, muitos países, inclusive os EUA, continuam a tê-la nas mãos.
    21 de julho de 2011 10:34

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